XIII ENCONTRO NACIONAL DE GEÓGRAFOS
João Pessoa, 2002

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A agroecologia e o desenvolvimento sustentável: uma construção teórica para a

análise da agricultura familiar: o caso de Antônio Carlos/SC

Maria Jaqueline Elicher

 

* Parte da pesquisa em desenvolvimento junto ao Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGG) do Departamento de Geociências, CFH-UFSC, orientada pela professora Dra. Walquíria Krüger Corrêa.

** Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFSC - (ktafesta@uninet.com.br).

 

1. Introdução

Antônio Carlos insere-se na microrregião da Grande Florianópolis e localiza-se ao norte da Capital do Estado. Na área em questão, predomina propriedades agrícolas familiares que são responsáveis por uma parcela considerável do fornecimento de produtos in natura aos mercados consumidores locais e regionais. Segundo dados fornecidos pela Central de Abastecimento de São José (Ceasa/SC), 32% das frutas, legumes e verduras comercializadas são provenientes do cinturão verde, formado por 21 municípios[1].

Cerca de 700 famílias produzem nos 2,5 mil hectares do município todas as variedades de verduras e legumes e algumas variedades de frutas, o que representa mais de 80% de sua economia. (Dados fornecidos pela Empresa de Pesquisa e Assistência Agropecuária de Santa Catarina - Epagri) Antônio Carlos é um dos principais produtores de hortaliças e responsável por abastecer a Ceasa e supermercados da região fornecendo em média, 50 mil toneladas/ano.

Dentre os fatores que contribuíram para a rápida expansão espacial da atividade hortícola estão a localização geográfica privilegiada (proximidade de centros urbanos com grande potencial consumidor – região da Grande Florianópolis), aspectos naturais favoráveis (clima, solo, etc), e estrutura fundiária (segundo dados do Censo Agropecuário do IBGE/1970, dos 599 estabelecimentos rurais do município 180 possuíam menos de 10 hectares, cuja exploração é feita à base de mão-de-obra familiar). A conjunção dessas características constituiu-se como mola propulsora do desenvolvimento econômico local.

Entretanto, as dificuldades enfrentadas com o baixo preço de comercialização dos produtos e o alto custo dos insumos ao longo das décadas, aliados a ausência de incentivos públicos para a agricultura no país, têm levado muitos produtores a procurar alternativas para vencer as adversidades e, entre elas destaca-se a produção agroecológica.

Essas dificuldades ameaçam a sobrevivência e a permanência do agricultor familiar no mercado e no meio rural. Isso pode ser demonstrado com o processo de parcelamento da terra no município. No ano de 1995, dos 715 estabelecimentos rurais, 374 possuíam menos de 10 hectares. Essa configuração fundiária cada vez mais parcelada demonstra as dificuldades do produtor em se manter proprietário dos meios de produção. As características mais particulares do município referência do estudo e as políticas públicas de apoio serão melhor analisadas em outro item.

A partir dessas considerações, objetivou-se analisar as questões relativas ao desenvolvimento sustentável, via práticas agrícolas alternativas da produção familiar, com destaque para a agroecologia. As reflexões teóricas foram associadas com as transformações em curso no município de Antônio Carlos/SC e no país de maneira geral.

O trabalho também aborda o discurso da busca por um novo modelo de desenvolvimento da sociedade muito em voga na atualidade, a sustentabilidade. Esse conceito é tido numa visão global através do discurso de que incorpora em si o ‘desejo’ das nações em proporcionar uma melhor distribuição das riquezas do planeta. Teoricamente esse modelo (considerado ainda em construção), tem como objetivo conciliar o crescimento econômico com as questões sociais e a utilização dos recursos naturais, para que possam ser reduzidas as desigualdades entre os povos.

 

2. As transformações na agricultura brasileira

2.1 - O processo de modernização

A evolução do tão esperado crescimento econômico brasileiro fundamentou-se na modernização tecnológica da agricultura, principalmente a partir dos anos de 1960. A meta do projeto modernizante era aumentar a produtividade do setor agropecuário para que o país pudesse competir no mercado externo, integrando-o ao setor industrial.

Para tanto, coube ao Estado brasileiro, a exemplo de outras economias subdesenvolvidas, a intervenção nos processos produtivos a fim de proporcionar a adaptação da economia nacional aos interesses gerais do capital internacional. O processo intervencionista privilegiou determinadas categorias de produtores, regiões e produtos e teve como principal ação a importação de um pacote tecnológico assentado em elementos químicos e mecânicos, originário da Segunda Guerra. Tal pacote visava promover a produção em grande escala e, conseqüentemente aumentar a produtividade agrícola.   O que se assistiu, no entanto, foi a implantação de um pacote homogêneo, totalmente inadequado às condições físicas e sociais do país, mas obviamente bastante apropriado para a instalação definitiva das indústrias das grandes potências mundiais em território nacional.

A proposta de milagre da “revolução verde” não levou em conta as diferenciações regionais e interpessoais dos produtores. Tendo uma abrangência desigual, a modernização provocou muitos impactos negativos e aumentou ainda mais os custos da busca pelo desenvolvimento. A produção intensiva e extremamente dependente, tanto com relação aos pesticidas e fertilizante, como maquinários e meios de transporte, mostra o caráter excludente das políticas públicas de incentivo à modernização que manteve a margem do processo significativa parcela dos agricultores brasileiros.

A homogeneização das técnicas produtivas levou a um rápido esgotamento do modelo de produção industrial, provocando um aumento ainda maior das desigualdades sociais no campo brasileiro, além da degradação ambiental que se coloca entre os maiores custos deste processo.

O custo ambiental aconteceu em função da degradação excessiva dos solos e dos cursos d’água, provocados principalmente pela prática inadequada de culturas e utilização intensiva de fertilizantes e pesticidas, que visavam a busca de máximo rendimento em prazo mínimo. Atualmente o gasto com recuperação de áreas antes agricultáveis, vem onerando os custos do pequeno produtor familiar, não só no Brasil como também em outros países periféricos, incluídos nas estratégias de expansão do capital industrial.

 

2.2 - A busca por um “novo” desenvolvimento sócio-econômico: sustentabilidade

As noções de desenvolvimento econômico recobrem múltiplas facetas e permite apropriações e leituras divergentes, as quais podem ser encontradas na literatura especializada. De qualquer forma, existe consenso sobre a importância do desenvolvimento econômico na organização das relações sociais e políticas. Mas, delimitar esta questão tem sido uma tarefa complexa. Segundo Ribeiro há uma crise nos modos de pensar desenvolvimento e é preciso ter cuidado.

A abrangência desta noção recobre desde direitos individuais, de cidadania, até esquemas de classificação dos Estados-Nações internamente ao sistema mundial, passando por atribuições de valor à mudança, tradição, justiça social, bem estar, destino da humanidade, acumulação de poder econômico, político e militar.... (RIBEIRO, 1991, p.60).

 

Para Ribeiro, as constantes mudanças nas formas de reprodução da vida humana têm levado a uma reformulação da noção de desenvolvimento criada no pós-guerra, a partir dos rearranjos sócio-políticos ocorridos no sistema econômico mundial. Pois, naquele momento estavam configuradas duas concepções ideológicas antagônicas sobre a noção de desenvolvimento: a do capitalismo e a do socialismo.

No ideário capitalista o desenvolvimento devia centrar-se nas forças de mercado e este ser regulado pela ação dos agentes econômicos, com o menor grau possível de intervenção do Estado, não considerando o acesso diferenciado das sociedades aos recursos naturais, tecnológicos e econômicos.

Contrariando este discurso, a ideologia socialista defendia o acesso igualitário aos recursos disponíveis no meio, cuja regulação e gestão é responsabilidade do Estado. Nos termos de Ribeiro (1991, p.69) “O desenvolvimento só pode existir através de um arranjo orquestrado de poder político e econômico que leve em consideração um objetivo redistributivo”.

Ao comentar sobre a questão Sachs (1986) chama a atenção também para as discussões sobre a utilização dos recursos naturais pelas sociedades modernas, fator que tem provocado profundos desequilíbrios. Entretanto, as discussões no plano teórico não bastam, em face da gravidade dos problemas. A situação requer a instauração de práticas políticas, nas quais a explicação dos futuros possíveis e a escolha dos futuros desejados possam adquirir direitos de cidadania:

A aposta em um desenvolvimento econômico e social contínuo, harmonizado com a gestão racional do ambiente, passa pela redefinição de todos os objetivos e de todas as modalidades de ação. O ambiente é, na realidade uma dimensão do desenvolvimento; deve, pois, ser internalizado em todos os níveis de decisão...(SACHS, 1986: 10).

 

O autor ressalta ainda que aos países subdesenvolvidos cabe o papel de evitar o caminho percorrido pelos países industrializados e a estes, é necessário limitar o desperdício de recursos naturais em vias de esgotamento. Além disso, eles devem proporcionar aos “mais pobres” a possibilidade de acessar os recursos, para se promover um crescimento socialmente mais equilibrado[2].

A tentativa inicial de instaurar essa prática deu-se em 1972 com a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente em Estocolmo, quando surgiram as primeiras preocupações de se encontrar alternativas de desenvolvimento que buscassem uma maior racionalidade e equilíbrio entre a utilização do meio ambiente e a existência humana num âmbito global.

Entretanto, foi o Relatório Brundtland o grande responsável pela propagação do conceito de desenvolvimento sustentável na esfera mundial. Este conceito tal qual proposto no Relatório teve grande impacto porque combinava duas questões fundamentais quanto à ordem social: a primeira diz respeito à idéia de que o crescimento material é a base do desenvolvimento da sociedade; a segunda é a de que existem procedimentos aceitáveis na relação homem e natureza, ou seja, existem evidências de que essa relação possa ser “reconstruída”.

Nesse sentido, a sustentabilidade como estratégia de desenvolvimento é amplamente defendida pelo relatório da ONU, o qual propõe a interligação entre economia, tecnologia, sociedade e política, chamando a atenção para a necessidade de se adotar uma nova postura ética, caracterizada pela responsabilidade das gerações futuras, assim como da sociedade atual, conforme referido por Brüseke (1995). Através das considerações feitas pela referida comissão, a definição de desenvolvimento sustentável seria “... o desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as futuras gerações satisfazerem as suas próprias necessidades”. O conceito foi aceito na comunidade científica mundial em função de seu caráter abrangente, pois não faz referências diretas aos interesses nacionais.

É justamente o fato de possuir esse caráter abrangente e democrático que faz com que as resoluções do Relatório “pequem” no que se refere às críticas à sociedade industrial e aos níveis máximos de consumo e uso das fontes de energia a que esses países deverão ter direito. Além disso, não se posiciona sobre os benefícios a que as nações não-industrializadas terão acesso, apenas faz referência, de modo genérico, ao fato do crescimento sócio-econômico dever atingir todos os países. (BRÜSEKE, 1995, p.29).

Foi só a partir de 1992 no Rio de Janeiro, com a conferência da ONU sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED), que a integração entre o desenvolvimento sócio-econômico e as transformações no meio ambiente, passou a fazer parte dos discursos oficiais da maioria dos governos. No processo, instalou-se uma nova filosofia de desenvolvimento, ou seja, a combinação de eficiência econômica com justiça social e prudência ecológica. Nesta perspectiva, “... o conceito de desenvolvimento sustentável sinaliza uma alternativa às teorias e aos modelos tradicionais de desenvolvimento, desgastadas numa série infinita de frustrações”. (BRÜSEKE, 1995, p. 35).

Portanto, define-se como desenvolvimento sustentável àquele que procura satisfazer as necessidades e aspirações humanas, seja nos países desenvolvidos ou em desenvolvimento, de maneira homogênea, proporcionando à população oportunidades de concretizar as aspirações de uma vida melhor. Nos termos de Ribeiro (1991, p.79) este documento “... longe de contestar o crescimento econômico, o coloca como uma solução ao mesmo tempo em que acena a bandeira de um melhor ‘futuro comum’, caso este caminho seja trilhado”.

Considera-se, entretanto, que o conceito de desenvolvimento sustentável está ainda em construção, por requerer uma complexa interligação de fatores. E, é justamente essa “interligação de fatores” que o torna inconsistente, desigual e até mesmo utópico. As boas intenções de seus objetivos, que visam conciliar o crescimento econômico com as questões sociais e a utilização racional dos recursos naturais para que possam ser reduzidas as desigualdades sócio-econômicas, está longe de efetivamente atingir a todas as populações de forma homogênea.

No Brasil, o desenvolvimento de políticas novas para o meio rural que atendesse aos problemas de cunho sócio-ambiental, enfrentou resistência dos setores conservadores da sociedade. A questão só passou a tomar forma quando a temática incorporou as discussões internacionais, tornando-se então referência para o desenvolvimento de programas de pesquisa voltados ao atendimento dos problemas relacionados à produção alimentícia e ao equilíbrio do meio ambiente.

As questões relacionadas à busca de um novo padrão de desenvolvimento rural, ou seja, o desenvolvimento sustentável, vem se firmando principalmente na dimensão local, ao menos do ponto de vista teórico. As preocupações com o meio ambiente são registradas nos programas de desenvolvimento rural em muitos municípios brasileiros, mas na prática pouca ação tem se concretizado. Por isso, deve-se considerar que esta problemática é eminentemente política. Assim, para que o desenvolvimento sustentável na agricultura familiar deixe de ser apenas um “desejo” e se transforme em algo efetivo, é necessário não só alterar a base técnica agronômica, mas principalmente a vontade política, ou seja, permitir o acesso democrático a terra e aos meios de produção.

A exemplo de outros municípios do país que vem, no âmbito local, incorporando a agroecologia como via alternativa econômica e, conseqüentemente sustentável, Antônio Carlos também iniciou na produção sem um planejamento prévio, ficando a cargo dos produtores e de ações restritas de alguns técnicos da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina S.A. (Epagri), a propagação das práticas que priorizam esta questão. Por isso, a capacidade de capital e de gestão da produção certamente fará a diferença para o sucesso ou não desses produtores.

 

2.4 - O (re) surgimento dos modelos alternativos: a agroecologia

A agroecologia, além da regeneração dos sistemas, tem “... o firme propósito de valorizar os aspectos socioculturais da produção agrícola” (EHLERS, 1996, p.74). Por isso, quando se faz referência à agricultura alternativa, todas as vertentes consideradas “rebeldes” ao processo de modernização tecnológica podem ser aí incluídas, porém o caráter da agroecologia é mais abrangente. Apesar disto, os agricultores familiares que adotaram as novas práticas, não tem noção ou não sabem que essas práticas fazem parte dos princípios da produção agroecológica, que procura adaptar a atividade agrícola ao meio ambiente.

Nas palavras de Altieri (1989, p. 28) a agroecologia,

 

...incorpora idéias mais ambientais e de sentimento social acerca da agricultura, focando não somente a produção, mas também a sustentabilidade ecológica dos sistemas de produção (...) implica um número de fatores sobre sociedade e produção que estão além dos limites do campo da agricultura.

 

As metas propostas pela agroecologia visam apontar as resoluções para os problemas da sustentabilidade. Em outras palavras, procuram considerar não só as questões tecnológicas, mas também as econômicas e sociais. Mas, na opinião de alguns cientistas, a agroecologia por si só, talvez não seja suficiente para atingir os objetivos do desenvolvimento sustentável. Conforme a proposta de Ehlers (1996, p.75) “...mais do que um conjunto definido de práticas, a agricultura sustentável é hoje um anseio, um objetivo.”

A agroecologia surgiu no Brasil de maneira muito tímida, após os movimentos ambientalistas das décadas de 1970 e 1980, com a proposta de oferecer saídas para a reparação dos impactos, tanto econômicos como ambientais, causados pelos avanços tecnológicos aplicados na agricultura do padrão industrial. Esta tinha por objetivo “redesenhar” os sistemas de produção que valorizavam a utilização intensiva dos insumos e a ausência da biodiversidade funcional. Alguns autores tratam esta questão como uma ressurgência dos costumes antigos, ou seja, o produtor resgata os conhecimentos ainda disponíveis na memória e restabelece uma relação mais equilibrada entre os recursos naturais e a exploração da produção agrícola.

Além disso, a agroecologia passou a representar também, uma opção para os agricultores familiares assolados pelos efeitos da “revolução verde” - dependência tecnológica e endividamento - resultante de financiamentos bancários para desenvolver o processo de produção agrícola.

 

4. Agricultura familiar em Antônio Carlos e a agroecologia como alternativa produtiva

Em Santa Catarina, a produção agroecológica é uma realidade, mesmo que incipiente e ainda pouco organizada. Os municípios envolvidos estão distribuídos nas diversas regiões do Estado e ainda não se tem um controle dos índices de produção. Quanto às normas para o controle da produção orgânica, o Estado é regido por determinações estabelecidas por órgãos como o Instituto Biodinâmico de São Paulo (IBD) e a Associação Orgânica de São Paulo, assim como pelo Ministério da Agricultura e pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Rural e da Agricultura de Santa Catarina, cuja tarefa é executada pela Epagri. O selo de certificação dos produtos é fornecido pela Fundação de Apoio ao Desenvolvimento Rural Sustentável do Estado de Santa Catarina (FUNDAGRO). Está a cargo de ONGs e da Epagri/SC as campanhas de difusão da produção agroecológica.

 O desenvolvimento da agricultura em Antônio Carlos seguiu os passos comuns ao modelo de desenvolvimento brasileiro, proporcionando desequilíbrios sócio-econômicos e ambientais no município. O empobrecimento de produtores provocados pelos altos custos da modernização e, em contrapartida, os baixos preços do mercado, além dos riscos causados por desequilíbrios naturais do ambiente, vem resultando em busca de alternativas para a continuidade da produção agrícola.

Nesse sentido, cabe aqui discutir um pouco as políticas públicas de incentivo a produção agrícola no país, que desde o seu princípio, com raras exceções em função do momento e de situações específicas, privilegiou a grande produção e a grande propriedade, inclusive setores privilegiados no processo de modernização da agricultura brasileira, sendo a pequena propriedade relegada a segundo plano. Para a agricultura familiar o acesso ao crédito sempre foi reduzido, quando não permeado por exigências e custos excessivamente altos.

Quando em 1996 foi criado o Programa Nacional de Apoio a Agricultura Familiar (PRONAF), este tinha por objetivo avançar em relação às políticas anteriores e promover o fortalecimento da agricultura familiar voltado para a demanda dos trabalhadores e sustentado em um modelo de gestão social em parceria com os agricultores familiares e suas organizações. Conforme o texto do Pronaf, o programa chama para si “o desafio de construir um novo paradigma de desenvolvimento rural para o Brasil, sem os vícios do passado” (PRONAF apud CARNEIRO, 1997, p.70).

Para Carneiro (1997, p.73) o fato de o programa ter sido elaborado a partir de referências de experiências européias (França em particular), o coloca como excludente para a realidade agrícola brasileira, já que no caso da França a agricultura familiar foi eleita a forma de produção sobre a qual se implementou a modernização agrícola, diferente do Brasil que teve como base a grande produção e os grandes proprietários.

Dessa forma o Pronaf tem como critério para seleção do público-meta, aquele que se encontra no grupo chamado de agricultura familiar de transição, além de ter tido acesso às inovações tecnológicas e ao mercado, ou seja, aprofunda uma política produtivista, sustentada na tecnificação que lhe possibilite não apenas garantir a melhoria nos padrões de vida, mas também reembolsar os investimentos públicos. (CARNEIRO, 1997, p.72).

A produção agrícola fomentada no município de Antônio Carlos, principalmente a partir da década de 1960, pode ser visto dentro daqueles casos específicos em que o crédito agrícola atingiu uma parcela considerável de pequenos agricultores brasileiros porque ao governo interessava criar um sistema de abastecimento interno de alimentos, no caso a produção de hortifrutis nos cinturões verdes a fim de atender aos mercados urbanos em plena expansão.

Essa realidade, no entanto, não perdurou entre os produtores de hortaliças do município que passaram a praticar outras formas de auxílio financeiro como poupanças ou empréstimos entre famílias, o que lhes permitiu dar continuidade às atividades agrícolas e inclusive se sobressair no cenário produtivo estadual, conforme pode ser visto na tabela 01, onde estão representados os números de alguns dos produtos cultivados no município em comparação a produção total do Estado.

Tabela 01 – Produção de Hortaliças (t) para Santa Catarina e Antônio Carlos

Produto

Santa Catarina

Antônio Carlos

Produto

Santa Catarina

Antônio Carlos

Acelga

95.893

45.730

Chuchu

9.943.049

1.184.136

Berinjela

441.180

233.061

Couve

2.630.036

406.605

Beterraba

12.959.502

2.214.867

Espinafre

293.742

235.85

Brócolis

1.177.431

637.915

Pimentão

18.430.570

562.719

Cebolinha (folha)

934.154

396.248

Rabanete

469.468

134.160

        Fonte IBGE: Censo Agropecuário/1995-96

O sucesso produtivo do município mostra que os agricultores de Antônio Carlos não são privilegiados em relação aos demais agricultores familiares brasileiros no que diz respeito ao acesso aos incentivos públicos, como poderia se pensar num primeiro momento. A forma encontrada para se manter competitivo no mercado e impulsionar o incremento da produção veio através da incorporação de atividades não agrícolas ao complemento da renda familiar. É o caso do turismo de lazer, quando alguns produtores rurais passaram a usar parte de suas terras na construção de parques aquáticos que servem como espaços de lazer para turistas de fim de semana.  Neles parte da família ou toda ela se dedica ao trabalho acessório, além de proporcionar alguns empregos, principalmente a filhos de outros agricultores. Esta atividade tem se difundido entre os agricultores mais capitalizados e vem, em alguns casos, substituindo totalmente a atividade agrícola.

Derivada da capacidade do pequeno produtor em ampliar as atividades criando alternativas à expansão da produção, vem se destacando no município a produção agroecológica de hortaliças. Esta atividade começou a se desenvolver a partir de 1997 através do incentivo da rede de supermercados Angeloni de Florianópolis; quando um agricultor iniciou a conversão da produção baseada na utilização intensiva de agrotóxicos para a agroecologia. Atualmente cerca de dez agricultores do município estão em processo de conversão e, alguns já podem ser considerados produtores agroecológicos por atenderem as diretrizes estabelecidas pelos órgãos responsáveis pela fiscalização.

Com a ampliação do mercado consumidor, na última década se constituiu no Brasil com a produção agroecológica um novo nicho comercial, despertando o interesse dos supermercados e também dos produtores. Para estes últimos, surgiu a possibilidade de recuperar a renda que vinha sendo reduzida nos últimos anos.

É claro que o percentual de produtores do município envolvidos nessa atividade ainda é muito pequeno se considerarmos os 715 estabelecimentos agrícolas (IBGE, 1995), mas o que deve ser levado em consideração é a forma como essa opção produtiva vem transformando a expectativa do produtor que vê na produção orgânica a forma de continuar inserido no mercado. Através da tabela 02 pode-se ter idéia da gama de oferta dos produtos agroecológicos, cuja tendência tem sido de expansão da oferta.

Tabela 02 - Produtos orgânicos cultivados em Antônio Carlos/2001.

01

Abóbora

08

Batata doce

15

Cebolinha Verde

22

Nabo

02

Acelga

09

Cenoura

16

Couve Chinesa

23

Pepino

03

Agrião

10

Chicória

17

Hortelã*

24

Pimentão

04

Aipim

11

Coentro*

18

Jiló*

25

Rabanete

05

Aipo/Salsão*

12

Berinjela

19

Manjericão*

26

Radiche

06

Alface

13

Beterraba

20

Milho Verde

27

Rúcula

07

Alho Poro

14

Brócolis

21

Mostarda

28

Salsa

Fonte: Pesquisa de Campo/2001.

 

Contudo a transição da agricultura assentado no padrão da revolução tecnológica, para a produção agroecológica, não é um processo simples e esta tem sido a maior dificuldade dos produtores. O agricultor é obrigado a retomar algumas práticas antigas, combinar práticas novas e preparar a família (principal fonte de mão-de-obra) para as mudanças, ao mesmo tempo em que continua envolvido com os cultivos baseados em insumos químicos, praticados em áreas à parte. A transição não é rápida, demora em média três anos e o acesso ao selo de certificação que garante a qualidade da produção orgânica tem se tornado uma tarefa árdua. Para os mais capitalizados esta tem sido uma dificuldade mais fácil de ser transposta, pois o investimento que no princípio é alto pode garantir mais rapidamente a inserção do produtor orgânico no mercado.

 

5. Considerações finais

Conforme Rousset (2001), não há sentido em tratar as questões ecológica e social de forma independente. Portanto, as aplicações dos princípios sustentáveis via agroecologia deve combinar estas duas exigências: de um lado, responder às necessidades sociais, seja com relação a problemática da produção de alimentos, seja para diminuir as desigualdades no campo; e de outro, contribuir para responder aos danos ecológicos, tanto os que foram criados no passado, como os que surgirão no futuro.

A construção teórica e a análise da produção agroecológica no município de Antônio Carlos podem contribuir para o esclarecimento de muitas questões que norteiam o debate acerca dos problemas que envolvem o campo brasileiro. O assunto não foi esgotado e requer novas pesquisas.

A agroecologia e o desenvolvimento sustentável enquanto modelo de desenvolvimento ainda encontra-se em construção, tanto no plano teórico como no plano prático, por isso mesmo, esta alternativa requer maior envolvimento da sociedade e apoio dos órgãos públicos em diferentes escalas. Porque como diz Altieri (1989, p. 28) a agroecologia “... foca não somente a produção, mas também a sustentabilidade ecológica dos sistemas de produção (...) e implica um número de fatores sobre sociedade e produção que estão além dos limites do campo da agricultura”.

 

6. Referências bibliográficas

ALTIERI, Miguel Angel. Agroecologia: as bases científicas da agricultura alternativa. Rio de Janeiro: PTA/FASE, 1989. 240p.

BRÜSEKE, Franz Josef. O problema do desenvolvimento sustentável. In: Cavalcanti, C. (org.). Desenvolvimento e Natureza: estudos para uma sociedade sustentável. São Paulo: Cortez, 1995. p: 29-40.

CAMPOS, Ginez Leopoldo R. De. Agricultura familiar, gerenciamento ambiental e agroecologia: algumas questões provocativas a serem pesquisadas. In: TEDESCO, João Carlos (org.). Agricultura familiar, realidades e perspectivas. 2.ed. Passo Fundo: IDIUPF, 1999. p. 317-333.

CARNEIRO, Maria José. Política Pública e agricultura familiar: uma leitura do Pronaf. In: Revista Estudos, Sociedade e Agricultura. Número 8, UFRRJ, Rio de Janeiro, 1997. p.70-82.

EHLERS, Eduardo. Agricultura Sustentável: origens e perspectivas de um novo paradigma. São Paulo: Livros da Terra, 1996. 175p.

LAMARCHE, Hughes (coord.). A Agricultura Familiar: comparação internacional. Uma realidade multiforme. Campinas: Editora da UNICAMP, vol. 1, 1997. 334p.

RIBEIRO, Gustavo Lins. Ambientalismo e desenvolvimento sustentado. Nova ideologia / utopia do desenvolvimento. Revista de Antropologia. São Paulo: Editora da USP,1991.p.59-101

RODRIGUES, Arlete Moysés. Espaço, meio ambiente e desenvolvimento: releituras do território. Revista Terra Livre/ AGB. São Paulo, nº 11-12, 1996. p. 77-90

SACHS Ignacy. Ecodesenvolvimento: crescer sem destruir. São Paulo: Vértice, 1986. 204p.

________. Rumo à Segunda Revolução Verde? I Simpósio Nacional: o sol é nosso: perspectivas de ecodesenvolvimento para o Brasil. Florianópolis, Universidade Federal de Santa Catarina, 1994. p.21 - 25. Anais...

SDA/EPAGRI. Diretrizes do projeto de produção orgânica de alimentos. Florianópolis, setembro, 1997. (mimeo).



[1] Fazem parte do chamado cinturão verde os municípios que compõe a mesorregião da Grande Florianópolis: Tijucas, Canelinha, São João Batista, Nova Trento, Major Gercino, Angelina, Leoberto Leal, Florianópolis, São José, Palhoça, Biguaçu, Antônio Carlos, Governador Celso Ramos, Santo Amaro da Imperatriz, São Pedro de Alcântara, Paulo Lopes, Alfredo Wagner, Rancho Queimado, Anitápolis, São Bonifácio e Águas Mornas. (Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e Integração ao Mercosul, 2000).

[2] A esse respeito ver Rodrigues (1996).